Saúde

'Canetas emagrecedoras' não substituem hábitos que sustentam a perda de peso
Semaglutida e tirzepatida reduzem fome e aumentam saciedade, mas especialista alerta para o perigo da recuperação do peso após o tratamento
Por Luis Martins - 19/09/2026


Resultados podem não se manter quando hábitos relacionados à alimentação e ao gasto energético não mudam – Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil


As chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam espaço entre as pessoas que buscam perder peso, em meio às dificuldades de mudar hábitos de vida e combater o excesso de peso. Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida atuam nos mecanismos de fome e saciedade e podem provocar mudanças que vão além da balança. A redução do apetite pode alterar a quantidade e a frequência das refeições e até a relação do paciente com determinados alimentos. É o que explica o endocrinologista e diretor do Centro de Hiperinsulinismo Congênito do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Raphael Del Roio.

“As canetas funcionam de diversas maneiras. Na verdade, essa classe de medicamentos mimetiza ou tem uma estrutura parecida com hormônios que o próprio corpo produz. Essa medicação e esses hormônios têm efeito no tubo digestivo, diminuindo a velocidade de movimentação e fazendo com que os alimentos passem mais devagar pelo tubo digestório. Eles também têm um mecanismo de saciedade, promovendo uma redução na vontade de comer e, consequentemente, na quantidade de comida que se consome”, explica Del Roio.

Apesar dos efeitos provocados pelos medicamentos, para que o tratamento resulte em uma perda de peso efetiva, especialmente entre pessoas com obesidade, a mudança de hábitos de vida continua sendo muito necessária. O uso dos fármacos deve estar associado a medidas que contribuam para o aumento do gasto energético e para a redução da ingestão de alimentos, afirma o especialista. “Para dar certo em termos de perda de peso, para o tratamento dos obesos, precisa ter uma mudança de hábitos de vida. É necessário. E eu não sei se as pessoas estão dispostas a isso.”

Essa popularização das “canetas emagrecedoras” também tem ampliado a procura por esse tipo de tratamento e influenciado a forma como parte da população encara o processo de perda de peso. A alta demanda pelos medicamentos chegou a favorecer a circulação irregular de algumas canetas, enquanto a facilidade proporcionada pela redução da fome pode levar à percepção de que o medicamento, sozinho, seria suficiente para alcançar os resultados desejados. Para Del Roio, essa visão pode dificultar a adoção das mudanças necessárias para o controle do peso.

“No entanto, é uma situação arriscada, porque, para muitos, isso é encarado como um remédio mágico, como uma alternativa mágica para perder peso. Isso significa que o indivíduo não vai mudar aquilo que precisa mudar, que é aumentar o gasto energético e diminuir a ingestão energética. Ele só vai usar a caneta e não vai mudar mais nada, o que, no meu entender, vai demandar o uso da caneta para o resto da vida, o que eu não sei se é, primeiro, saudável e, segundo, economicamente praticável”, afirma.

Novos hábitos

Os efeitos provocados pelo medicamento, no entanto, não garantem, por si só, a manutenção dos resultados após o fim do tratamento. A permanência das mudanças depende também da adoção de novos hábitos, inclusive após o uso, já que a interrupção do medicamento pode fazer com que o paciente volte a apresentar as condições que contribuíram para o ganho de peso. “Após interromper o uso da medicação, por algum tempo, essas mudanças permanecem. Mas, se o indivíduo não mudou os hábitos, ele volta a engordar e volta a ter os mesmos problemas depois de parar de usar a medicação”, explica o endocrinologista.

A dificuldade de manter os resultados após o fim do tratamento também aproxima as canetas de outras estratégias populares de emagrecimento. Assim como acontece com as chamadas dietas da moda, o uso dos medicamentos pode produzir resultados enquanto é acompanhado por mudanças na rotina, mas a manutenção desses resultados depende de hábitos que possam ser incorporados ao dia a dia. A diferença está na forma como cada estratégia atua sobre o organismo e no papel que exerce dentro do processo de emagrecimento.

“Tanto as canetas como as dietas da moda demandam uma mudança de hábitos. No meu entender, isso não pode ser confundido com uma alternativa mágica de redução de peso, porque isso não existe. Sem mudança de hábitos, seja com medicamentos por via oral, redutores de apetite, canetas ou mesmo dietas da moda, os resultados não se perpetuam, não se mantêm”, finaliza Del Roio.

 

.
.

Leia mais a seguir